Vida de Consultor de Regras nas Olimpíadas 2008 Imprimir E-mail
Por Ricardo Lobato   
17 de June de 2009
No início do ano de 2008 recebi o convite para integrar a equipe olímpica no papel de consultor de regras. Confesso que fiquei surpreso, já que não existia esta função nas últimas delegações brasileiras. Depois fiquei sabendo que isto foi uma exigência dos principais velejadores: a equipe 2008 não deveria ter “cartolas”. Confira os bastidores das Olimpíadas!

Apesar de ter grande experiência como juiz, esta seria a primeira vez que trabalharia nesta função. Meu primeiro passo foi saber as expectativas de cada atleta. Os velejadores no último ano antes das Olimpíadas têm pouquíssimo tempo disponível. São muitas viagens, treinos e testes de material. Não sobra muito tempo para estudar as regras. Portanto, o trabalho de preparação teve que ser muito focado nas necessidades de cada classe. Por exemplo, no 49er o crucial é o posicionamento da largada e as montagens de gates. No 470 as montagem da marca de contravento são complicadas. No Star, Finn e Laser a principal preocupação é a regra 42 (propulsão). Já na prancha a vela, há poucos protestos e por isto pode haver algumas surpresas. Outro problema é que dificilmente toda a equipe está junta durante o ano. A minha oportunidade para fazer a preparação foi durante a Semana de Vela da Holanda em maio quando fiquei duas semanas com toda a equipe. Além de fazer a preparação nas regras, neste período tive um grande apoio dos técnicos que me ensinaram as principais táticas e técnicas de cada classe. Apesar de já ter velejado nas maiorias das classes Olímpicas, o 49er e a prancha eram um mundo novo para mim.

Em agosto chegou a hora da verdade. A maioria da equipe chegou a China com duas semanas de antecedência. Tive a oportunidade de acompanhar alguns treinos. Com o auxilio de uma câmera de vídeo, consegui mostrar algumas técnicas que poderiam infringir a regra de propulsão. Tive que aprender também detalhes de cada regra de classe para poder auxiliar a equipe durante as medições. Tivemos algumas reuniões técnicas para discutir alguns pontos das instruções de regatas. Sempre que havia alguma dúvida quanto à interpretação das instruções eu preparava uma pergunta para a organização que prontamente respondia através do quadro de avisos.

Finalmente começaram as regatas! Minha rotina era acordar cedo e participar da reunião técnica com a organização. Eu fiquei encarregado também das informações meteorológicas. Antes das regatas eu passava as novidades para os técnicos e velejadores. Eu também fiz uma preparação especifica com os brasileiros antes da regata da medalha. Nesta, preparação analisamos as possíveis estratégias para a conquista das medalhas, incluindo algumas táticas típicas de match race. A pedido do Robert Sheidt, também preparei a velejadora Lituana Gintara Volungeviciute para a medal race. Ela acabou conquistando a medalha de prata na classe Laser Radial e por pouco não levou o ouro.
Mas o que fazer durante as regatas? Ir para a água era um risco muito grande. Não era permitido nenhum tipo de comunicação com os botes. Se eu ficasse acompanhado uma raia e houvesse um problema com outra classe, não ficaria sabendo. Então, restava ficar no quarto da vila assistindo as regatas pela televisão. No primeiro dia quando o Bochecha e Leiteiro do 49er estavam subindo na rampa eu já tinha um protesto preparado contra um velejador norueguês. Tudo pronto, protesto e a filmagem do incidente no meu laptop. Bastava o Bochecha assinar. Acabou que ele decidiu não entrar com o protesto, mas ele ficou muito satisfeito com o trabalho. Aos poucos fui ganhando a confiança da equipe. Todo dia tivemos situações de possíveis protestos. O velejador brasileiro não gosta de protestar. Nós também procurávamos evitar sermos protestados através da conversa e do jeitinho brasileiro. Eu conhecia praticamente todos os outros consultores de regras das outras equipes o que facilitava o diálogo. Alguns juízes e velejadores consideram estes tipos de acordos como sendo desleal. Entretanto, o protesto é um direito do velejador, que pode ou não ser exercido. Somente entramos com um protesto de barco contra barco. Foi a Fernanda Oliveira do 470 contra a equipe da Suécia. Era uma situação simples, porém a Fernanda não estava muito confiante. Fizemos uma simulação do protesto que ajudou bastante. No final as Suecas foram desclassificas. Entramos também com um pedido de reparação na primeira regata da classe Star devido a uma grande rondada no primeiro contravento. Apesar de eu achar que as chances eram poucas, decidimos ir em frente. Para minha surpresa, o protesto demorou três horas, mostrando que o júri estava sensível aos nossos argumentos, mas no final ele foi desconsiderado, assim como outro pedido feito para o 470 masculino alegando que o sinal de chamada individual não era audível no lado de sotavento da linha. Eu ainda representei os velejadores brasileiros em dois pedidos de reparação: um feito pelo sueco na medal race da classe Star, alegando um erro na chegada que custaria a medalha de prata do Robert e Bruno, outro foi o famoso caso da regata da medalha da classe 49er que foi um capítulo a parte.

Apesar de muito trabalho, as Olimpiádas foram uma experiencia muito gratificante. Foi emocionante ver a conquista das medalhas. Primeiro a de Bronze conquistada pela Fenanda Oliveira e Isabel Swan que premiou um exclente trabalho de preparação. Depois veio a já esperada, mas muito suada, medalha do Robert Sheidt e Bruno Prada. A cerimônia de abertura e o tempo passado na vila olímpica também serão guardados com carinho. As Olimpíadas são um misto de diversas emoções vividas intensamente em pouco mais de uma semana. Um momento marcante para mim foi quando o Bimba chegou da última completamente esgotado devido ao esforço para passar vários adversários na última perna da regata. Exemplo de raça e superação. Tive momentos também de tristeza e decepção, como, por exemplo, o mal resultado obtido pelo Bruno Fontes na Laser, não representando a dedicação e o talento deste velejador. Mas o que ficou foi a alegria com os bons resultados, amizade e respeito com estes atletas durante as Olimpíadas.

Última Atualização ( 17 de June de 2009 )
 
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