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A regata da medalha foi introduzida pela Federação Internacional de Vela nas Olimpíadas com dois objetivos: dar mais emoção a regata final e acabar com os protestos após as regatas. Com certeza o primeiro objetivo foi atingindo. Como a regata da medalha valia o dobro de pontos, as medalhas mudavam de mão a cada rondada de vento da raia A, armada em frente ao quebra mar da Marina de Qingdao. O segundo objetivo, infelizmente, não foi alcançado. As regatas da classe 49er e Star tiveram seu resultado final decidido numa mesa de protestos. Na classe Star o problema envolveu os brasileiros Robert Sheidt e Bruno Prada. Felizmente, não foi nada muito complicado, mas o suficiente para atrasar a entrega das medalhas em algumas horas. O problema foi que a Comissão de Regatas (CR) colocou os Suecos em nono lugar, ao invés de décimo, no quadro oficial após a chegada. A própria CR se deu conta do erro e recolocou o Sueco em décimo lugar dando a medalha de prata para os brasileiros. O sueco pediu reparação. Porém todas as evidências estavam contra eles: a filmagem área da TV, uma filmagem da linha de chegada, os dados do GPS dos barcos e próprio testemunho da CR.  Barco Dinamarques Já o problema ocorrido no 49er foi bem mais complicado. No último dia, a equipe da Dinamarca tinha 11 pontos de vantagem para os italianos que estavam em segundo. O vento estava forte e os dinamarqueses foram os primeiros a descer para a regata e quebram o mastro. Definitivamente, não havia tempo para trocar de mastro. Então eles decidiram pegar o barco dos croatas que não estavam classificados para regata da medalha. É importante destacar que as Instruções de Regatas permitiam a troca de material avariado desde que a CR fosse avisada antes do sinal de atenção e fosse feito, posteriormente em terra, um pedido para o medidor. Foi exatamente o que aconteceu. Eles trocaram o barco e foram correr a regata. Eles largaram apenas três segundos antes do tempo limite. A regata foi uma loucura e as medalhas foram trocando de mão a cada capotada. Os italianos perderam o ouro numa virada praticamente na linha de chegada. Lá atrás vinham os dinamarqueses que correram a regata toda sem balão, pois não houve tempo para passar a adriça. Eles chegaram a dois minutos do tempo limite de chegada, na frente somente dos brasileiros, que chegaram só de buja! Os americanos e austríacos não conseguiram completar a regata. Com este resultado, os dinamarqueses conquistariam o ouro, ficando os espanhóis com a prata e os alemães com o bronze. Mas o sofrimento não acabou aí... Chegando em terra, o Jury colocou um aviso no quadro convocando todos os dez barcos para uma audiência. Mas tarde foi informado que os americanos estavam fazendo um pedido de reparação tentando anular a regata e os espanhóis, italianos e a própria CR estavam protestando a Dinamarca por diversos itens de medição e das instruções de regata. Na regata da medalha, todos os protestos e pedidos de reparação deveriam ser julgados dentro da água de forma a agilizar o processo. Mesmo assim foi montando um grande circo: 10 representantes dos barcos com um observador cada na frente do jurí internacional. Eu participei da audiência representando o barco brasileiro. A noite ia ser longa. O pedido de reparação do americano era calcado em dois argumentos: O primeiro argumento foi derrubado pelo depoimento da CR, mas ficamos ainda algum tempo discutindo se havia ou não condições de regata. A regra do 49er diz que a regata deve ser anulada em caso de rajadas de 25 nós por mais de 30 segundos. Na verdade, o principal problema enfrentado pelos velejadores não era o vento que estava dentro do limite, mas as ondas. A raia da regata da medalha era próxima de terra, onde é mais raso e subia muita onda. Alem disto, tinha muita onda desencontrada, que refletia no quebra mar. Apesar de tudo isso, a audiência foi, na verdade, uma formalidade dispensável. A regra da regata da medalha não permite um barco pedir reparação sobre um erro da CR. Portanto, o pedido do americano foi considerado inválido. Os outros 3 protestos foram julgados logo a seguir. Mas a audiência foi postergada para o dia seguinte... Este protesto realmente era mais complicado, pois além da questão da troca de barco, havia vários itens das instruções de regata e do regulamento de medição que haviam sido infringidos: O barco não tinha identificação correta (numeral e bandeira do país), não levou câmera a bordo e não ficou na área de quarentena no dia anterior. Entretanto, todas estas regras não eram passíveis de protestos por barcos. A regra é feita desta forma exatamente para evitar protestos oportunistas como este. O júri poderia iniciar um protesto e arbitrar uma penalidade diferente de desclassificação. Mas, evidentemente, não era o caso, tendo em vista que os dinamarqueses não levaram nenhuma vantagem infringindo estes itens das instruções. Concluindo, o Jury tomou a decisão acertada, apesar de demorar dois dias para julgar o protesto. Os espanhóis e italianos tentaram recorrer ao CAS (Corte de Arbitragem), mas novamente não tiveram sucesso. Infelizmente, este não era a forma adequada de se terminar as Olimpíadas. A regata da medalha foi uma tentativa de se terminar as regatas dentro da água. Mas, pelo visto, as coisas nos nosso esporte estão cada vez mais complicadas... |